Mais do mesmo
Escrevo constantemente sobre a tristeza
Porque penso sistematicamente sobre a tristeza
Efetivamente, quase initerruptamente...
Intervalos de mera distração
enchem o meu coração
da mais pura inspiração
que preenche os intervalos
da nossa solidão
Penso ser verdade
para todos nós pessoas
apesar da diversidade
somos como canoas
de um só passageiro
à deriva no nevoeiro
Escrevo por querer saber
por que a tristeza sobrevive
à canoa em boa maré
à esperança, ao querer, à fè
procuro...
e não sei...
se algum dia saberei
o que nos leva lá para o fundo
do nosso submundo
o que no fim sempre aparece
o que no fim
nunca se esquece
Já contei noutra história
como tento ser sua companheira
é a minha maneira
de não sair da sua beira
sem nunca nela me afogar
"cair da canoa ermita..."
nem quero lembrar
que a melancolia me permita
sempre a acompanhar
Não quero mais guerra
contra a nossa natureza
chegamos e vamos da terra
sós pela mão da tristeza
Ser feliz
qual a verdade?
temo não saber
mas algo me diz
que não é na felicidade
que vamos aprender
É aceitar
o que a vida tem para dar
em bater com a nossa singular canoa
em obstáculos, em tesouros e até atoa
augúrios bons ou maus
apenas sobre os vivos caiem
em principio nem sobre as pedras nem os paus
nem nada do que não sente
é um vazio a sua mente...
Ser é viver
e o contrário também se presa
alegria, tristeza ou até surpresa
sentir
procurar
talvez o nunca encontrar
tudo isso é a felicidade
a tristeza
a solidão
nada nos move mais senão
querer o contrário da realidade
remar contra a maré
ter a nossa canoa fora de pé
tudo isso é uma confusão
e tudo isso é triste...
mas concluo que na sua ausência
nunca sentiríamos o mais ínfimo respício de felicidade
E foi até agora aqui que a minha procura me encontrou
presumo que nunca deixarei de escrever sobre a tristeza
pois sem ela não conheceria o seu contrário
como seria ter apenas uma emoção, sem a sua contradição?
como distinguiríamos o certo do errado?
o bom do mau?
seria tudo o mesmo
o tempo todo
mais do mesmo


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