a paz em aceitar o que não queremos que seja a nossa verdade

Era uma vez numa vida qualquer 

Um dia em que o mundo caiu

Do pedestal para o vazio

Tudo o que se fez de certo 

Não abriu portas, mas corredores

Longos e frios, sem janelas

O descobrir que querer a paz

Não acalma as vozes que gritam,

Não salva ninguém do choque das vontades

Lutar pelo conceito de "bem"

Não tem medalhas, mas feridas,

Falar em voz alta às vezes dói mais

Do que o silêncio

Pela inacção...

Percebemos que tudo é demais

E mais emaranhado do que precisava ser,

Que cada nó carrega mil mãos a apertá-lo

E os sonhos...

Os castelos de ar,

As asas, a magia,

Esquecidos a um canto

Onde já não ousamos olhar

Surge então outra paz inesperada

Baixar a cabeça, dizer

Sim, o mundo não me deve nada,

E mesmo assim, seguir caminho

Aceitar a vida

Toda ao contrário, não é desistir

Devemos acreditar 

É largar o peso inútil

E dar o pé a outros passos

Menos brilhantes, memoráveis,

Mas mais seguros

Se valer a pena...

E assim seguimos:

De mãos vazias,

Com olhos mais atentos,

Um coração que ainda bate

Só por estar vivo

Há uma paz, dizem

Depois de aceitar

Mas antes há que atravessar

A dor de sentir cada sonho a rasgar

Cada esperança a desfazer-se no chão

Paz amarga, sem recompensa, sem perdão

E só então, com a alma mais leve

Esquecemos as cicatrizes

Erguemo-nos outra vez

E caminhamos, não porque não doa

Mas porque o depois já espera por nós

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